sexta-feira, 26 de março de 2010

Quarta-feira

9.30h a 70 Km da minha cama:
Patrocinava eu o Queixoso num processo-crime de Injurias contra dois irmãos.
“Assassino” “mataste o nosso pai”, foram as expressões injuriosas proferidas pelos arguidos, que lembro, são irmãos do meu cliente.
Quando cheguei ao Tribunal o cliente já clamava justiça, num circo de bradar aos céus.
Demasiado dramático para mim. Refugiei-me logo dentro da secretaria, para não dar dois berros a quem me paga, mas que era o que ele merecia.

A Senhora Juiz chama-nos para tentar uma conciliação.
E ele recomeça o número de circo ali mesmo, que não quer saber, quer que seja feito o julgamento e não e não e não.
A parte contrária oferece pagar metade da indemnização pedida, em troca da desistência da queixa.
Que não, que quer que se faça o julgamento, que não quer o nome dele na lama, que não quer saber que sejam irmãos (que quer é sangue, basicamente).
E eu, estranhamente, a assistir calada.

Então, vem a parte contrária dizer, que é com muito esforço, mas que pagam a totalidade do pedido e não se fala mais nisso.
Já disse que não, vamos para o julgamento, eu não quero dinheiro nenhum, vou dá-lo a uma instituição e pra frente e pra trás.
A Senhora Juiz tenta mais uma vez, veja lá, é família. Recebe a totalidade da indemnização que pediu. É muito razoável, veja lá. O julgamento é um risco, pode não se provar nada…
Ai é, ai é? E as custas?
(A juiz cheeeeeia de paciência) As cíveis são da competência dos arguidos seus irmãos e as criminais já estão liquidadas…
Ai é? E quem paga à minha Advogada?
VOCÊ.
(Digo-lhe eu em voz alta, depois de me ter saltado a tampa.)
Mais um bocadinho e tinha-lhe dado uma lambada.

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